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A crise da União Européia

Julho 18, 2011

Nivaldo Cordeiro | 18 Julho 2011

 

Tenho escrito reiteradas vezes que a crise econômica atual é reflexo do fracasso político da social-democracia, força que ganhou musculatura desde o final da II Guerra e é o modelo político imperante em quase todo o mundo, exceto China e Cuba, comunistas (esqueço algum dinossauro?). A social-democracia é a tentativa contraditória de implantar igualdade econômica e política, ao preço da supressão da lei da escassez, o sonho socialista desde sempre. Sonho impossível, posto que essa fórmula mágica não é conhecida e não sobrou remédio que não os países adotarem a economia keynesiana como instrumento, o que equivale a implantar o truque mefistofélico tão belamente cantado por Goethe no magnífico poema Fausto, no começo do século XIX. A prosperidade inflacionária pode ser obtida, sim, por certo tempo, mas seu preço é caro. Depois da alegria do pileque embriagador vem sempre a desagradável ressaca e a respectiva dor de cabeça.

Emitir moeda em profusão é tomar pinga na boca da garrafa. É o que estamos a ver na União Européia, e não apenas; nos EUA também, que seguiram por outras formas a mesma fórmula.

Aproveito dois artigos publicados na página Três da Folha de São Paulo de hoje (16) para comentar o assunto. A Folha propôs a pergunta: A crise dos países europeus ameaça a zona do euro? Mario Ramos Ribeiro disse “Sim” como resposta, enquanto Roberto Luis Troster disse “Não”. Ao ler ambos os artigos fiquei com a sensação de que os economistas escaparam ao tema central da questão e suas repostas, aparentemente contraditórias, na verdade convergiram no essencial.

A questão central não respondida é que o modelo social-democrata inerente à zona do euro faliu. Não é possível ter um Estado tão agigantado e pagante de contas para as quais não tem recursos e nunca os terá, ainda que eleve a tributação aos céus. A social democracia vende aos eleitores a idéia de bem-estar social como sinônimo de enriquecimento fácil e ócio gracioso: acesso a serviços caros e sofisticados por toda a gente, sem a responsabilidade de trabalhar para obtê-los. Pior: o Estado quis bancar um sistema irracional de aposentadorias sem um custeio prévio consistente. Claro que déficits viriam a seu tempo e a bancarrota pública está evidente pela situação de países como Grécia, Portugal e Itália. Do outro lado do Atlântico, os EUA debatem-se no afogamento inflacionário sem precedentes (no momento Obama precisa de autorização do Congresso para aumentar a dívida ainda mais e os republicanos, que controlam a Casa, não parecem dispostos a ceder sem um profundo corte nos gastos públicos, que decretaria o fim da social-democracia norte-americana). O festim de gastos públicos no bem-estar social (locução mal empregada, slogan publicitário enganador, eleitoral) levou à explosão da dívida pública e da emissão de moeda, à inflação.

Roberto Luis Troste, embora tenha dito “Não”, argumentou o óbvio: “Faltam também recursos e autoridade para atuar de forma contundente quando aparecerem dificuldades“. Reparem na palavra autoridade, voltarei a ela. Se faltam recursos, obviamente há uma ameaça imediata à zona do euro. O autor não se apercebeu da contradição com que argumentou, negando sua negativa. E, como a se sustentar numa escora sonambúlica, completou: “O projeto do euro é um projeto ganhador: há mais países interessados em fazer parte dele e as cotações da moeda corroboram sua força. A integração do continente avança, mas ainda é fraca“. Falso argumento porque não era essa a questão. O critério não é saber se outros governos tolos querem, ou não, entrar no festim inflacionário. É saber se o sistema se sustenta.

Sob a palavra “autoridade” vejo que Troster enxerga a solução tecnocrática de um governo central tirânico, que possa ditar a todos suas regras de gastos. Nem sei se tem consciência disso, mas o suposto de sua defesa da moeda comum é a tirania, com a abolição das autonomias nacionais. Em suma, o governo mundial sobreposto a todas as instâncias locais. O pesadelo de todos aqueles que lutam e perseveram pelas liberdades individuais.

O “Sim” de Mario Ramos Ribeiro é mais consistente e mais lógico, embora convirja com Troster para a saída tecnocrática e tirânica. Começa o artigo com uma pergunta muito pertinente: “Quanto tempo pode resistir uma união monetária sem a ocorrência conjunta de uma união fiscal? Ou, mais ainda, sem uma união política?” O autor colocou o dedo na ferida: a união monetária carrega consigo o germe do Estado totalitário, que poderá exigir o fim dos Estados nacionais e a respectiva supressão das liberdades individuais.

Em seguida, Mário Ribeiro Ramos argumento, de forma assaz equivocada: “Crises financeiras são epifenômenos. Estão apenas na superfície de uma doença mais profunda e ainda não declarada. O fenômeno, que é a própria patologia, é a ‘crise de governança‘.” Claro que crises financeiras não são meros epifenômenos, são a crise em si. Mas Ribeiro Ramos afirma essa bobagem porque julga, como bom tecnocrata que é, que tem a chave para a superação dos problemas monetários. E qual é a chave? Claro, a tirania. Dê a Bruxelas o poder de dizer a cada país, e até mesmo a cada europeu, o que pode e o que não pode gastar, o quanto e em que, e aí a crise monetária tornar-se-ia mero epifenômeno. É a crença de Milton Friedman e de Keynes de que a humanidade conhece as leis monetárias últimas, bastando, para administrá-las, que se dê aos tecnocratas o poder total sobre a vida das pessoas e se transforme toda gente em escravos de um tirano mundial.

Mario Ramos Ribeiro é tão ingênuo em sua crença tecnocrático-totalitária que escreveu, sem qualquer pudor: “Governança na zona do euro requer regras do jogo bem definidas, exige um mapa contratual em que as responsabilidades e a segregação de atribuições sejam acordadas de modo supranacional, mas que não abafem o ethos nacional de cada país-membro e que, assim, possam ser razoavelmente factíveis. Governança requer instituições comuns.” Governança, nesses termos, requer apenas a tirania, nada mais. O fim das liberdades.

O que esses dois não viram é que é preciso seguir o caminho contrário ao da social-democracia: redução do Estado, deixar o cidadão cuidar da sua própria vida, de sua sobrevivência, de sua aposentadoria, de sua saúde. Não é preciso burocratas para gerir a vida prática. Essa mentira política é a raiz da crise. Ela precisa ser desmascarada, do contrário a tese de que só a tirania é que poderá superá-la pode prevalecer. Deus nos livre e guarde dessa maldição, que é a mesma pensada por Hitler e Lênin.


Vídeo:

Escrevi o artigo mostrando a gravidade do momento que o mundo vive. A razão é a derrocada da proposta política da social-democracia. Hoje (17) o jornal O Estado de São Paulo publicou editorial no qual aponta a fragilidade dos países europeus. 24 bancos estão em situação crítica e 8 deles não passaram nos testes de estresse. O editorialista apontou que há uma causação bilateral da crise entre tesouro-bancos-tesouro: quem quebrar primeiro leva o outro a quebrar também. O jornal concluiu que agosto poderá ser o mês fatídico. O mundo está sob ameaça equivalente àquela que viveu em 1929.

 

 

Via MSM.

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