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Curitiba manchada de sangue

Maio 9, 2011

[originalmente publicado na Revista Ideias]

Cidade sorriso. Rotulada de capital ecológica pela Organização das Nações Unidas (ONU), com melhor qualidade e padrão de vida do país. Altos índices de educação que a preconizaram como a cidade do conhecimento. Referência no transporte urbano, impressiona pela limpeza e organização de suas praças e parques. Aos quatro cantos, é exaltada como “de primeiro mundo”. Esta é Curitiba, capital do Paraná, a maior cidade do Sul do Brasil.

Para boa parte dos curitibanos – que se reúne em clubes luxuosos, discute a instabilidade do mercado financeiro em restaurantes refinados e difunde orgulhosamente as virtudes da cidade em viagens anuais à Europa – Curitiba é assim, um exemplo a ser seguido. Difícil é convencer outra parcela da população – muito maior, diga-se de passagem – que tudo isso é verdade. Os curitibanos de classe social mais baixa, excluídos da atenção das autoridades, que se amontoam em invasões às margens de rios poluídos, abrigados em casebres de madeira, à mercê dos ineficientes serviços públicos. Povo que sofre, em becos escuros e estreitas ruelas de saibro, com o crescimento desproporcional do tráfico de drogas e o consequente domínio de grupos criminosos.

É principalmente esta gente que sente na pele a dificuldade de morar na 6.ª capital mais violenta do país – conforme estudo divulgado recentemente pelo Ministério da Justiça, baseado em dados de 2008. A pesquisa revela que, levando em conta o número de homicídios e o tamanho da população, Curitiba é mais perigosa que Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Florianópolis e São Paulo, cidades que também apresentam altos índices de qualidade de vida. Apenas quatro capitais do Nordeste e uma do Sudeste foram mais violentas que Curitiba, naquele ano. Infelizmente, de lá para cá, o quadro não se alterou. De acordo com levantamento do site Crimes Curitiba, no ano passado 860 pessoas foram assassinadas na capital paranaense, ou seja, mais de 70 por mês. Significa que a cada 10 horas e 11 minutos uma viatura do Instituto Médico Legal (IML) – sucateada, por sinal – atravessou a cidade para recolher o corpo de uma vítima da violência. Os números revelam o preocupante índice de 49,2 mortes por 100 mil habitantes. É tanta violência que, para a ONU, o índice é considerado epidêmico (o tolerável gira em torno de 10 a 12 mortes por 100 mil habitantes). Para efeito de comparação, nas europeias Londres, Paris, Roma e Madri, cidades inegavelmente de primeiro mundo, o índice não chega a duas mortes para o mesmo grupo de moradores. A ampla diferença deixa o “sorriso” da nossa cidade um tanto amarelado.

Os dados são ainda mais estarrecedores quando somados aos desestruturados municípios da região metropolitana. Foram 1.850 assassinatos nas 26 cidades que integram a Grande Curitiba, alcançando a média, quase bélica, de cinco vítimas fatais por dia. Cidades como Piraquara e Pinhais, por exemplo, atingiram no ano passado índices espantosos de 131 e 105 mortes por 100 mil habitantes, suficiente para incluí-las na indesejável lista das 15 mais violentas do país.

A criminalidade atingiu um patamar tão elevado que alarmou o novo secretário de Segurança Pública do Paraná, Reinaldo de Almeida César, empossado em janeiro. “É inacreditável que nosso Estado tenha índices tão altos de violência”, declarou em uma de suas primeiras entrevistas no cargo.

DROGAS

São inúmeros os fatores que contribuem para a propagação do crime e o avanço da violência. Problemas sociais comuns em periferias e invasões, como a falta de educação e oportunidades, desestruturação familiar e as quase nulas opções de lazer, frequentemente tiram jovens do trabalho honesto e os lançam para o mundo da criminalidade. Surge o tráfico de drogas e a ilusão de uma vida melhor, embora perigosa. O dinheiro rápido e fácil, o poder e a intimidação das armas se tornam mais atraentes que o serviço pesado e normalmente mal remunerado.

No entanto, como diz o ditado popular, o tráfico de drogas muitas vezes é um caminho sem volta, com destino à cadeia ou ao cemitério. As autoridades policiais são unânimes em afirmar que mais de 80% dos assassinatos são motivados por alguma desavença originada pelo envolvimento com as drogas. “O crack é um flagelo e 98% dos municípios brasileiros sofrem com ele. Precisamos combatê-lo como às outras drogas, que não são só um problema de polícia, mas uma questão de política pública”, declarou o secretário Almeida César.

Boa parte das vítimas ingressa no tráfico para ganhar dinheiro e, em pouco tempo, se torna dependente químico. Começa a vender para sustentar o vício e, quando não tem mais, passa a furtar e roubar. Sem limites, chega a tirar objetos da própria casa e da família para trocar por algumas pedras. Se der sorte, acaba na prisão. Se não, entra para as estatísticas de mortes por assassinato.

BAIXO INVESTIMENTO

Mas se as drogas estão espalhadas por todos os cantos e o tráfico é um problema que aflige o mundo todo, por que os números da violência são maiores na Grande Curitiba? Para muitos, a resposta está no crescimento acelerado da população nas últimas décadas, que veio desacompanhado de investimento na área da segurança pública. Em 30 anos, o número de habitantes aumentou em 106%, causando inchaço das cidades e agravando os problemas sociais.

Por outro lado, a estrutura da polícia paranaense não acompanhou esta mudança, deixando uma lacuna que aos poucos foi sendo preenchida pela marginalidade, e propiciou o aumento da circulação de drogas e armas no estado. “A segurança pública piorou dramaticamente, na última década, com redução de investimentos e de efetivo policial e aumento paralelo significativo da criminalidade”, disse Almeida César.

De acordo com o secretário, para cumprir a legislação, o Paraná precisaria hoje contratar 10 mil policiais militares e dobrar o efetivo da Polícia Civil, que, atual­mente, segundo o Sindicado das Classes Policiais Civis do Paraná (Sinclapol), é de aproximadamente 3,5 mil. “Nos últimos anos foram contratados policiais apenas para suprir os que haviam saído”, lamenta André Luiz Gutierrez, presidente do sindicato. O delegado Rubens Recalcatti, há 30 anos na carreira policial, concorda. “A estrutura da nossa polícia hoje é a mesma de décadas atrás”, relata.

INVESTIGAÇÕES PREJUDICADAS

A falta de recursos no setor da segurança atinge diretamente as delegacias especializadas e os distritos policiais de Curitiba e região metropolitana. A Delegacia de Homicídios, por exemplo, responsável por investigar praticamente todos os crimes contra a vida ocorridos na capital, conta hoje com seis delegados e cinco equipes de investigadores, que recebem cerca de 60 inquéritos mensais. Como os policiais se dividem por turnos e não por região, muitas vezes são obrigados a investigar casos em cantos opostos da cidade, desperdiçando tempo e informações que podem ser fundamentais na elucidação dos crimes. Há anos, a classe policial reivindica, sem sucesso, a criação de uma Divisão de Homicídios, com departamentos de investigação espalhados pela capital.

Na região metropolitana o problema é ainda mais grave. A maioria das delegacias sofre com o pequeno efetivo e as carceragens superlotadas. Casos de assassinatos são atendidos, normalmente, pela Polícia Militar, porque os investigadores não podem deixar a delegacia por questão de segurança. “Temos que resolver com urgência o problema da superlotação carcerária nas delegacias, que afasta o policial de sua verdadeira função. O policial na rua, desempenhando seu trabalho, traz sensação de segurança à população de bem e inibe os criminosos”, afirmou Almeida César.

Com a ausência do investigador na rua, o delegado recebe as informações colhidas pelos policiais militares. Porém, muitas vezes esse procedimento é vagaroso. Como o efetivo da PM também é reduzido, o boletim de ocorrência demora a ser digitado e colocado no sistema. Por conta disso, o delegado e os investigadores só ficam sabendo do caso quando a família da vítima aparece na delegacia. Ou seja, as primeiras horas após o assassinato, consideradas essenciais para obter provas e elucidar o crime, são perdidas.

O mesmo acontece quando alguém sofre um atentado e é hospitalizado. As delegacias normalmente não são avisadas e a vítima permanece internada por dias ou até semanas sem que a polícia tome conhecimento. Quando a pessoa morre na unidade de saúde, os parentes são obrigados a retirar a guia de necropsia para liberar o corpo no IML. É nessa hora que se registra o boletim de ocorrência e dá-se início à investigação.

Caso a pessoa não seja identificada no necrotério, ela é enterrada como indigente e a polícia sequer fica sabendo do assassinato. Por mais absurdo que possa parecer, é como se o crime simplesmente não tivesse acontecido.

ÓRGÃOS SUCATEADOS

O IML é outro órgão que sofre com o descaso na área da segurança pública. As viaturas danificadas, a falta de pessoal e a estrutura deplorável para atendimento ao público geram situações que beiram ao caos. Recentemente uma família de Fazenda Rio Grande não conseguiu sepultar o ente querido porque o corpo não foi encontrado no necrotério e a suspeita é que tenha sido enterrado indevidamente. Na Grande Curitiba é comum ver parentes aguardando horas pela chegada do “rabecão”. Vítimas da violência são praticamente “veladas” pela família até que a viatura apareça para recolher o corpo.

O Instituto de Criminalística também encontra graves problemas, principalmente pela falta de profissionais. O reduzido número de peritos e auxiliares não consegue dar conta da demanda de exames, que podem ser fundamentais nas investigações. “Mais de 5 mil armas estão armazenadas no instituto à espera de perícia”, declarou a chefe da divisão técnica da capital, Joice Malakoski. Algumas estão lá há quase 10 anos, gerando situações bizarras. “Temos armas de inquéritos que já foram concluídos e que o réu, condenado, já cumpriu a pena. Outras foram apreendidas com pessoas que já morreram e continuam aqui para serem periciadas”, acrescentou a perita.


REGIÃO METROPOLITANA

A região metropolitana de Curitiba é formada por 25 municípios, excluindo a capital, e sua população é de aproximadamente 1,4 milhão de pessoas. Em função do intenso fluxo migratório – motivado principalmente pelo atrativo das grandes empresas – e do crescimento desordenado, os municípios vizinhos testemunharam o agravamento de inúmeros problemas urbanos e sociais. O resultado foi a transformação de boa parte deles em um verdadeiro faroeste.

Os índices de violência beiram o inacreditável. Pinhais, Piraquara e Campina Grande do Sul, por exemplo, estão na lista das cidades mais perigosas do Brasil, quando se calcula o número de mortes por habitantes. Além delas, Almirante Tamandaré, São José dos Pinhais, Fazenda Rio Grande, Colombo, Araucária, Rio Branco do Sul e Quatro Barras têm taxas de assassinato maiores que Curitiba. A criminalidade está tão espalhada que apenas o município de Doutor Ulysses passou 2010 sem registrar homicídio.


RETRATO DE UM ASSASSINATO

A cena acontece provavelmente em um fim de semana, à noite – ano passado 40% dos assassinatos ocorreram no sábado ou domingo. É possível que se passe no verão, já que os meses mais quentes apresentam índices maiores de violência. O mais comum é que a vítima seja do sexo masculino e tenha menos de 25 anos. Se for igual à maioria das vezes, a arma usada foi revólver ou pistola. O motivo: drogas.

Logo após o estampido dos tiros, o Siate é chamado e chega ao local em torno de 10 minutos. O rapaz não resiste e morre antes de receber atendimento médico. Na hora dos disparos, as testemunhas correm, mas não dura muito para que voltem, misturadas a moradores e curiosos. Com a chegada da Polícia Militar, os populares permanecem em volta do cordão de isolamento, acompanhando a cena que, para muitos, já é rotina. Tão banal que alguns chegam ao disparate de levar filhos e crianças de colo, como que se estivessem no circo ou no parque de diversões.

Aos poucos, a rua é tomada de viaturas oficiais e veículos da imprensa. Policiais militares e civis, e repórteres de rádio, televisão e jornal tentam colher informações com a população ou familiares da vítima. Logo chega o perito para analisar a cena do crime e, finalmente, surge o camburão do IML. Para a polícia, o recolhimento do corpo indica apenas o início das investigações. Para os curiosos, é o fim de mais uma “atração”. O público começa a dispersar e, rapidamente, a rua volta ao seu movimento normal.



Fotos Átila Alberti


FONTE.

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From → brasil

One Comment
  1. Victor permalink

    Caralho, sabia que o negócio tava feio, mas não tanto!

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