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O Mal onipresente de Tropa de Elite 2

Abril 8, 2011

Já faz algum tempo que o filme saiu de cartaz, mas esse artigo reflete exatamente a impressão que tive ao assistí-lo no cinema – enquanto a esquerdinha (com suas sandálias hipongas de grife) na poltrona ao lado dava pulinhos e grunhidos de excitação.

[originalmente publicado no Mídia Sem Máscara]

Sei que o Klauber Pires, editor do blog Libertatum, rejeita e boicota o cinema nacional de forma irredutível, e a cada dia que passa, noto que isto não ocorre sem razão. Apesar do acerto (acidental) que foi dado no primeiro filme Tropa de Elite, confesso que fiquei horrorizado e um tanto decepcionado com a visão vendida ao público no segundo filme da série. Claro que não fui assisti-lo nos cinemas mas esperei o filme sair em locadora, afinal, o custo-benefício de uma sessão não vale a pena quando se trata de cinema nacional, tanto pelo financiamento estatal, como pela improbabilidade de se encontrar um filme que seja, no mínimo, palatável.

Mas voltando ao assunto, lembro, na ocasião do lançamento do primeiro Tropa de Elite, de ter relutado um pouco até assisti-lo. O que eu tinha lido e ouvido falar relatava que o filme fora um sucesso por ter sido um tiro que saiu pela culatra: reza a lenda que o diretor queria retratar a violência policial, mas acabou (infelizmente para ele e felizmente para nós) por criar um herói com aprovação popular, desses que fazem aquilo que as pessoas gostariam de ver na vida real. Outra coisa que vi muito a respeito foi a campanha que o diretor e o elenco demoveram mídia afora pregando a liberação das drogas como forma de eliminar o tráfico de drogas. Tapei o nariz e, depois de encarar o filme na tela da minha sala de estar, fui obrigado a dar o braço a torcer e, no fundo, comemorar o primeiro herói de verdade do cinema nacional – e o primeiro filme tupiniquim a mostrar os mocinhos como mocinhos e os bandidos como bandidos.

Com o lançamento do segundo filme, o bafafá foi ainda maior: alguns amigos meus amaram, foram ver o filme umas duas vezes no cinema, já que o Capitão Nascimento xingava os “merdinhas de esquerda”. Mas também ouvi muitos comentários que diziam que, neste filme, o diretor tentava “consertar” o engano que ele considera ter feito no primeiro. Mas tirando o diz-que-diz, o comentário mais profundo foi o do professor Olavo de Carvalho em seu programa de rádio respondendo a um ouvinte que reclamava que logo o político de esquerda do filme é que era o único honesto. Embora para mim o comentário tenha sido um pouco vago, isso já depunha um pouco contra o filme, mas juro que tentei manter um ar imparcial ao resolver assisti-lo de fato.

A verdade é que, depois de me expor a uma hora e quarenta e cinco de DVD, a conclusão que cheguei é que o filme é muito pior do que eu imaginava, muito pior do que poderia ser, e que o comentário do professor ainda foi leve perto do que vi retratado no filme. Garanto que ele deve ter notado as coisas que notei (e mais um pouco), mas como não vi nenhuma leitura do filme similar à minha rolando por aí (eu também não procurei), achei que poderia ser a hora de escrever algo de relevante a respeito e deixar as pessoas mais importantes tratarem de assuntos mais importantes.

Portanto, a primeira coisa a ser notada em Tropa de Elite 2 é justamente essa da idealização do político de esquerda comentada há pouco. O personagem Diogo Fraga, é a encarnação do político honesto, e a alusão ao PSOL na logo do fictício partido ao qual ele pertence no filme é claríssima*! Não poderia haver maior descompasso com a realidade: qualquer um que acompanha o prof. Olavo de Carvalho, os artigos da Graça Salgueiro e as traduções que ela faz dos textos do Cel. Villamarín Pulido, da Colômbia (e também o Mídia Sem Máscara e vários blogs como o próprio Libertatum, Dextra, Julio Severo entre outros), sabe que a esquerda inteira está unida ao tráfico de drogas pela defesa e aliança com as FARC através do Foro de São Paulo. Segundo que o próprio PSOL, aludido no filme, tem como um dos fundadores o terrorista Achille Lollo, condenado por homicídio na Itália, numa historinha muito parecida com a de Césare Battisti. Portanto, somente em torno dessa personagem, é fácil brincar de jogo dos sete erros. Mas no fim da história, se o problema do filme fosse só esse, talvez ele ainda pudesse mostrar alguma qualidade apesar da militância (quase) enrustida.

Já que citei as FARC, eis um ponto do filme que me deixou realmente aflito: com a promoção do Cap. Nascimento, a guerra ao tráfico de drogas é declarada, havendo até o recrudescimento do tráfico. Mal deu tempo de pensar como isso seria bom na vida real e o filme coloca um novo inimigo: as milícias formadas pelos policiais corruptos. Na lógica do filme, sem os traficantes como “concorrentes”, as milícias passam a cobrar propina não sobre o tráfico, mas sobre todas as atividades de comércio das favelas, criando um mal muito pior como decorrência natural do mercado! Então numa paulada, o capitalismo leva sua própria alfinetada, e o espectador começa a ter a impressão de que, no fundo, o tráfico não é uma coisa tão ruim assim. Então o mal evolui para a fase das milícias, e é aí que o inferno realmente começa. Além de tudo, o Cap. Nascimento, agora sub-secretário de segurança, com uma cabeça direitista e retrógrada, não enxerga o verdadeiro mal e continua mandando dar cabo dos traficantes enquanto, com isso, as milícias vão ganhando força. Voltando à realidade, como não vivo no Rio de Janeiro, não sei se as milícias de fato funcionam assim, muito menos qual é o efeito real delas nas comunidades. Mas, obviamente, o crescimento das milícias não é favorecido pela ausência de tráfico, mas pelo desarmamento civil! Tentando analisar as coisas de forma lógica, sem o tráfico, mesmo com o aumento da corrupção através das milícias, creio que a tendência ainda devesse ser a de diminuição da violência, embora haja o aumento do estrangulamento financeiro e, portanto, empobrecimento das favelas. Com isso as milícias, ao menos retratadas como são no filme, em questão de tempo, provavelmente acabariam por determinar o fim de si mesmas, pois os recursos que eles tomavam para si logo iriam começar a escassear.

Como se não bastasse, o filme então forja as supostas ligações do esquema de corrupção das milícias, com as compras de votos nas eleições, e dá a impressão simetricamente contrária da relação que acontece na vida real. Existe relação política com o banditismo na vida real? Sim! Mas notemos que, ao contrário da vida real, os políticos do filme não são aliados do tráfico, como a nossa esquerda, mas criam um esquema de popularidade com a caça aos traficantes, favorecendo a milícia, o aumento da violência, o empobrecimento da população das favelas e, portanto, criando um círculo vicioso que os torna cada vez mais poderosos quanto mais a polícia faz o que deveria fazer, que é caçar criminosos! Então no fim todos são criminosos, da base ao topo da pirâmide nas relações de poder e o filme chega à conclusão maravilhosa de que no fim todos são iguais ou piores aos traficantes! Não é lindo?

Para completar a retratação do reino do Anticristo, o que mais me frustrou e irritou no filme foi ver que o Cel. Nascimento, que não agiu errado em nenhum momento do filme, conseguiu ter todos os seus acertos convertidos em fracasso pelo “Sistema”, uma entidade onipresente, sem rosto, capaz de corromper tudo, inclusive os atos da pessoa menos corruptível: o próprio Cel. Nascimento. O que resta na “moral” da história é que não importa o bem que se queira fazer, ou a envergadura moral do herói que possa aparecer. Tudo o que for feito sempre será convertido em mal, portanto, melhor desistir logo e deixar as coisas como estão, pois o “Sistema” sempre vencerá a luta. Não é o contrário do Cristianismo, ou de todas as filosofias e religiões, que pregam que o Bem é a única coisa absoluta? Mesmo presumindo a filosofia das religiões fosse puro otimismo, já que é algo que não pode ser “provado”, essa visão do Bem absoluto já inculca a vontade e necessidade de lutar, de combater o mal. Mas se o Mal é absoluto, o que podemos fazer se todo o bem que fazemos será convertido em mal e a pior batalha que lutarmos será, na melhor das hipóteses, um esperneio inóquo? A visão que o filme acabou me transmitindo é aterradora, e se a realidade fosse como o filme, nada restaria a não ser o sofrimento e o niilismo. E aí provavelmente eu me converteria a uma dessas seitas que pregam o suicídio coletivo, pois seria a única coisa que restaria.

Nas tragédias gregas, segundo algumas teorias que vi quando eu me graduava em artes cênicas, sempre há um ponto da trama que determina que tudo o que o protagonista faça depois, seu destino já está selado e não há mais volta. Esse ponto é chamado de falha trágica. Portanto a falha trágica seria o momento da escolha errada, da ação que determinaria o fim da personagem. Nas tragédias shakespearianas acontece algo parecido, mas a mão do destino parece restaurar a normalidade dos mundo através da morte de seus protagonistas. No entanto, de forma alguma isso pode ser aplicado a Tropa de Elite 2. Não há escolha errada ou ação indevida do Cel. Nascimento que possa fazer com que tudo dê errado. E não há restauração da normalidade com o destino que lhe é lançado, mas apenas a promessa de que tudo vai piorar, pois a força maligna por trás dos acontecimentos é tão poderosa que só resta a pergunta: o que é que pode demovê-la?

O único ponto positivo de tudo é que este filme é seqüência do primeiro. Naquele foi criado um herói e, nesta seqüência, mesmo apesar do reino do mal e de tudo conspirar para o aumento da criminalidade, Nascimento se mantém incorruptível. Como espectadores, ao menos continuamos tendo um herói já que estamos carentes deles, tanto no cinema quanto na literatura nacionais. Afinal, é da formação do imaginário através das gerações que ações um dia poderão ser tomadas no plano da realidade. Eu poderia afirmar, sem muita margem de erro, que a falta de heróis no imaginário do brasileiro certamente é um dos fatores que tornou nossa sociedade suscetível à corrupção. E se um dia quisermos mudar esse panorama, precisamos ter heróis incorruptíveis pululando na imaginação do brasileiro aos borbotões. Com o Cap. Nascimento, já temos a primeira inspiração (e, conseqüentemente, o motivo do sucesso dos dois filmes).

Espero que ele não seja também a última…


Nota:

* Em tempo: a alusão ao PSOL não só é clara como ela é ostensiva, como fui descobrir no primeiro link dos resultados da busca que fiz no Google pelo nome da personagem, depois que terminei de escrever o artigo. Realmente a coisa é pior do que eu pensava! Veja em: http://fmanha.com.br/blogs/michellemayrink/2010/10/23/deputado-marcelo-freixo-e-o-diogo-fraga-de-tropa-de-elite-2/

FONTE.

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From → brasil

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