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O fracasso das feministas

Março 29, 2011

[originalmente publicado no Mídia sem Máscara]

Nada ilustra melhor a diferença entre o idealismo e o realismo políticos do que a campanha para promover as mulheres ao poder, agora com um século de idade. Os idealistas insistem em princípios universais, baseados em teorias sobre direitos, que beneficiem igualmente todas as mulheres. Os realistas compreendem a idéia de que mulheres de talento, em cargos reais e capazes de exercerem autoridade, fazem mais para persuadirem o público da aptidão das mulheres para governarem do que qualquer outra coisa.

As militantes dos direitos das mulheres, as suffragettes e as feministas alcançaram espantosamente muito pouco. Uma razão é que a maioria delas também estavam radicalmente engajadas na promoção de todo tipo de causas de esquerda além das demandas específicas das mulheres. Quando se deparavam com a escolha do que vinha primeiro, a esquerda ou as mulheres, eram normalmente as mulheres que ficavam em segundo lugar. É provável que algumas mulheres teriam conseguido o voto na Grã-Bretanha bem antes da Primeira Guerra, se as feministas estivessem preparadas para aceitarem qualificações de idade e bens ao invés de se dar o voto a todas as mulheres com mais de 21 anos. Violet Bonham Carter, filha do primeiro-ministro liberal na época, explicou para mim que foi por isto que ela se opôs às suffragettes: seus objetivos limitados teriam inflado o voto tory no final das contas. Ou ao menos é o que ela e outras acreditavam.

Neste caso, venceu facilmente o voto para mulheres com mais de 30 anos, sem qualquer problema, em 1918, por uma simples razão. Durante a guerra, milhões de mulheres tinham feito o trabalho dos homens, na indústria, em serviços públicos, como ônibus, e mesmo, na França, por trás das linhas, com energia e competência, mesmo que fosse preciso coragem. Qualquer dúvida sobre sua capacidade tinha sido sanada por mulheres reais na experiência concreta. Do mesmo modo, em 1928, a outorga do voto a todas as mulheres com mais de 21 anos (o voto ‘Flapper’) foi reconhecida praticamente sem oposição. O pragmatismo venceu o idealismo em todos os setores.

Pode-se dizer que o pragmatismo tinha uma longa história na Inglaterra.

Os witenagemots anglo-saxônicos incluíam abadessas de grandes conventos, que haviam demonstrado sua capacidade e bom-senso na administração de terras da igreja. E as mulheres que herdavam propriedades nos tempos anglo-saxônicos retinham mais poder sobre elas do que em qualquer época até a Lei de Propriedade das Mulheres Casadas, de 1822. Foram os normandos, com suas concepções continentais de direitos dos homens, suas distinções absolutas e sua postura teórica ao invés de prática que fizeram as leis que seguraram as mulheres durante o milênio seguinte.

O que muitas vezes me impressionou é que todas as mulheres de sucesso que eu conheci na política foram anti-feministas, embora algumas não ousassem dizê-lo publicamente. Bárbara Castle, embora uma ferrenha trabalhista durante toda a vida e bastante à esquerda, costumava dizer: ‘As feministas não fizeram absolutamente nada por mim. Eu tive que fazer tudo eu mesma.’ Ela achava que o feminismo, com sua insistência em ‘Cadeiras’, etc., era muitas vezes contraproducente. Também era o caso de Violet Bonham Carter, a melhor oradora que já escutei. Indira Ghandi acreditava que ela devia tudo a sua família e não devia nada ao movimento feminino. Outros dos primeiros exemplos de primeira-ministras como a sra. Bandaranaike, do que na época era o Ceilão, e Golda Meier, de Israel, fizeram progresso por inteligência, persistência, coragem e, não menos importante, sorte.

A sorte certamente teve um papel na carreira política de Margaret Thatcher — ela foi uma política com uma boa sorte bem regular — mas a coragem teve muito mais. Concentração em algumas idéias centrais, enorme vontade de poder e, acima de tudo, coragem, todas, até então, consideradas virtudes masculinas, formavam a combinação que a levou ao topo e a manteve lá. Ela me disse: “As feministas me odeiam, não é? Eu não as culpo. Porque eu odeio o feminismo. Ele é um veneno”. As feministas se opunham a ela porque ela desmentia todas as suas teorias e clichês. Elas nunca a citam como um exemplo do sucesso das mulheres no governo e tentam fazer pouco caso de todos os seus triunfos. Elas odiavam o modo bem sucedido como ela se investia do poder, sua extraordinária habilidade em manter o penteado impecável durante o dia mais longo e estressante (que contraste com a patética Shirley Williams) e seu uso impiedoso do apelo feminino para chegar a seus objetivos. Seria difícil pensar em alguma outra mulher em toda a história que se recusasse tão obstinadamente a se encaixar na imagem feminista da mulher ideal no poder, embora Elizabeth I e Catarina a Grande, da Rússia sejam fortes competidoras.

Do outro lado do Atlântico, Sarah Palin e o Movimento Tea Party representam um exemplo impressionante do modo como as mulheres progridem em uma democracia midiática moderna apesar (não por causa) do movimento feminino. As críticas mais ríspidas, estridentes e até violentas de Palin foram as feministas. Elas a consideram não só como uma rival, mas como uma inimiga, e elas querem ver sua carreira pública capotar para uma ruína irreparável. O Tea Party elas vêem com medo e repulsa. Ele trouxe à linha de frente um número excepcionalmente grande de mulheres em todas as partes dos Estados Unidos e como candidatas para todos os tipos de cargos. Muitas são jovens, bonitas, extrovertidas e com um gosto por piadas. Em novembro último, muitas foram eleitas, provavelmente na maior entrada de mulheres para cargos eletivos na história americana. Tudo sem uma palavra de apoio das feministas — na verdade, para seu manifesto pesar. O alarme e o questionamento que o Tea Party causaram no movimento feminino não são as menores de suas particularidades.

Na Grã-Bretanha, o aspecto mais significativo do feminismo, hoje, não é tanto o que ele faz quanto o que ele deixa vergonhosamente de fazer e particularmente em relação a um assunto: a sujeição e exploração das mulheres muçulmanas. É um assunto tabu. Por que deveria ser? Parte da explicação é o medo. As suffragettes podem ter estado erradas sob alguns aspectos, mas coragem para enfrentar a massa — qualquer massa — não era algo que lhes faltasse. As feministas modernas são covardes na hora de confrontar os maus-tratos islâmicos às mulheres. Uma razão adicional, entretanto, é o velho problema de se encaixarem as mulheres na visão de mundo da esquerda, na qual a Ásia e a África islâmicas são vistas como anti-ocidentais e, portanto, “progressistas”. Os interesses das ‘simples’ mulheres muçulmanas tem que ser sacrificados pela manutenção de uma ilusão.

O que a história ensina é a importância do esforço individual e do caráter pessoal na melhoria do modo como fazemos as coisas e para assim se fazer a sociedade progredir. Isto se aplica a qualquer segmento da humanidade a que estejamos tentando dar direitos — membros da antiga classe trabalhadora na Grã-Bretanha, os negros nos Estados Unidos, mulheres em toda a parte. O que queremos são mulheres de carne e osso de primeira classe fazendo coisas e fazendo-as bem. Não abstrações teóricas – ‘cadeiras’.

*Tradução: Dextra

**Artigo original no The Spectator.

FONTE.

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